as mais mais de 2025
uma retrospectiva das vibes, memes & trends que mais deram o que falar esse ano.
dizem que 2025 foi o ano que mudou tudo. análises e retrospectivas vão se empilhando para dar conta deste ano tão sísmico e sacana (dá uma olhada nos gráficos). as emissões de CO2 no planeta bateram recorde, a expectativa e a desigualdade também. o ar nunca esteve tão poluído, nossas telas idem. e as previsões apontam que, até o final de 2026, 1 em cada 4 vídeos que assistiremos no Instagram e no TikTok serão gerados por IA. sobrancelhas arqueadas, não é mesmo?!
mesmo assim, não podemos negar que 2025 foi uma mãe no quesito memes e acontecimentos bombásticos, VIRALISMOS pulsando, os grupos de whatsapp também. teve morango do amor, Felca contra a adultização de crianças, COP30, bebês reborn, Bolsonaro preso, tarifas, Bolsonaro soldador, vampetaço, Camila Fremder no Vênus, o tsunami cultural do Bad Bunny, Rosalia freira em LUX, Dua Lipa tirando RG, noveleiros em marcha com Beleza Fatal e Vale Tudo, as batalhas de outlikes, Katy Perry no espaço, a Fernanda Torres fazendo a vida prestar, Golpismo Crônico (ou a Virginia na CPI), entre muitos, mas muitos outros mesmo. o ano labubônico serviu e até a Lady Gaga gritando BRASIIIIIIIL! na praia de Copacabana. cansou? os emojis também.
recordar é viver: começamos o ano falando do ILUMINISMO DAS TREVAS e estamos terminando afogados em IA-slop. pra coroar, rage bait é a palavra do ano segundo o dicionário Oxford, o que diz muito sobre a sociedade nesse recorte internético. e que a gente não estava tão louco quando escreveu sobre a ECONOMIA da TENSÃO, lá no começo de 2023.
como o mundo nunca para de capotar girar, ainda tem muita pauta antes do ano acabar. até porque 2026 vem aí, com aquela clássica dobradinha de eventos que testam o já roto tecido social: Copa do Mundo + eleições presidenciais. mas enquanto o ano não vira, vamos ao giro final no top 12 (transparência acima de tudo, não conseguimos reduzir para 10) das nossas pautas favoritas do memes & trends em análise (e também algumas vibes que publicamos neste ano). aviso aos navegantes: isto não é um ranking 🫨
1 * branding “soft” fascista
a campanha “Sydney Sweeney Has Great Jeans”, da American Eagle, causou uma grande repercussão – só que negativa. intencionalmente negativa, muito provavelmente. a ideia era ser um revival pop para a marca no período de volta às aulas nos EUA, mas acabou abrindo um abismo cultural – que pareceu mais uma trincheira na guerra cultural. o branding nunca mais foi o mesmo.
ao usar o trocadilho entre jeans (a calça) e genes (material genético), a peça ativou um subtexto: a associação direta entre traços fenotípicos eurocêntricos e “bons genes”, um eco de ideais eugenistas temperados sob estética cool. a campanha de lifestyle acabou performando algo maior: a estetização de uma narrativa de supremacia racial na vitrine publicitária do capitalismo.
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2 * a graça de ser básico
office siren, mob wife, adidas samba, mermaidcore, a capinha de celular porta-gloss da Rhode, cacareco girls, ghiblification… como bem diz o artigo do New York Times, paira no ar um sentimento de esgotamento, especialmente entre os mais jovens — justo a suposta ditadora-e-seguidora de tendências GenZ. o excesso nunca pareceu tão… digamos, excessivo.
e qual é a atitude de consumo perfeita para lidar com momentos de alta complexidade? o básico. ou melhor, os 50 tons de básico que tomaram a internet – do minimalismo do quiet luxury ao revival do indie sleaze. se algum um dia “basic(a)” já foi ofensa, parece que nem lembramos mais dessa época.
cafona hoje é xingar o básico de cafona. ou eleger branco como a cor do ano, não sabemos muito bem.
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3 * hub-son
sai da frente tradwife, agora é a vez dele: hub-son, "o filho que fica em casa”, só que não como fracasso pessoal, mas como persona cultural, estilo de vida aspiracional e, claro, nicho de conteúdo. não é o filho-problema do imaginário dos anos 2000, o marmanjo no porão que só joga videogame. e nem mesmo o cara do quarto caótico (favor dedicar uma hora de derretimento cognitivo ao Boy Room). não, não, não.
estamos falando é do filho-gestor da casa, o filho-marido que ajuda nas tarefas domésticas, acompanha a mãe nas compras, grava vídeos dobrando roupas enquanto fala descalabros sobre saúde mental e, no meio disso tudo, performa uma nova masculinidade possível. ou melhor: uma masculinidade reembalada, suavizada pelo filtro do TikTok e patrocinada pela lógica do soft privilege.
não à toa que um dos hits do ano foi Manchild, da Sabrina Carpenter.
o discurso é o da escolha. ele “decidiu” voltar para casa, “optou” por focar em projetos pessoais, “preferiu” priorizar bem-estar e desacelerar do grind culture, mas o subtexto grita: crise imobiliária histórica, salários achatados, gig economy colapsando e um mercado de trabalho que já não garante sequer o aluguel de uma kitnet. é uma engenharia cultural que transforma a precariedade em estética, onde até a dependência econômica pode virar narrativa aspiracional.
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4 * vigiar e punir 2.0
uma câmera, ao vivo, projeta alguém do público nos telões do estádio enquanto Chris Martin, vocalista do Coldplay, improvisa uma letra ao vivo para os fãs que tiverem a sorte de serem capturados. JumboTron song, ou música do Mega Telão em tradução livre. um casal se esquiva da mira da câmera. tarde demais, reputações foram arruinadas e a fúria da centrífuga implacável dos geradores de memes foi colocada em marcha. os amantes C-level da mesma empresa pegos no flagra e queimados na praça pública da vila global. eles até viraram estampa de camiseta com a acronímia M.A.P.A.: MAKE AFFAIRS PRIVATE AGAIN.
desde então, outros flagrantes vêm nos lembrando que o grande irmão está sempre sempre de olho (e o tribunal da internet pronto pra julgar 24/7). é a sociedade do espetáculo, só que sem consentimento e com amplificação mundial.
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5 * rituais de humilhação
o termo humiliation ritual começou em fóruns conspiratórios da extrema-direita com a ideia de que celebridades seriam forçadas a se submeter a situações constrangedoras como prova de lealdade a ~elites ocultas. agora ganhou outro sentido na cultura pop: um jeito de nomear a sensação de que, na internet, tudo tem um quê de performance embaraçosa. CRINGECORE alçando novos voos e, como escrevemos lá no ensaio do VIRALISMO, habitamos as terras da Clown Town, uma perturbadora arena de palhaços e bufões.
na lógica do algoritmo, cada post é uma aposta: será que rende? será que vão rir de mim ou comigo? na prática, topamos ambos, sem nunca ter certeza do que exatamente estamos topando.
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6 * doppelgängers
innies e outies pra quem é de Severance / Ruptura. Eliza e Sue para quem prefere A Substância. Anitta e Larissa para quem é Anitter. Anora e Ímola para quem é das botas brancas do job — ou simplesmente… da internet.
doppelgänger – a palavra de origem alemã que significa “duplo ambulante” ficou cada vez mais presente esse ano. em seu livro-viagem pelo mundo-espelho, a ativista e escritora Naomi Klein define o estado atual da duplicação. ou da multiplicação. para ela, vivemos em um tempo no qual cada indivíduo parece ter seu duplo, uma cópia geralmente maligna que segue vagando por aí.
A cisão e a fragmentação do sujeito em duas versões nunca estiveram tão pop. se 2024 foi povoado por sósias (os concursos de lookalike viraram até bloco), podemos dizer que o ano de 2025 foi, definitivamente, a vez do doppelgänger.
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7 * ESTOICISMO AESTHETIC
se você não dormiu debaixo de uma pedra em 2025, certamente foi impactado pelo vídeo do creator fitness Ashton Hall — ex-jogador de futebol americano universitário da Flórida, com 14 milhões de seguidores no Instagram. o mito compartilha seus rituais de vida e bem-estar, com seus músculos ostensivos e pepinos sendo servidos por funcionários — de quem geralmente vemos apenas as mãos. a vida de Hall que conhecemos é a exibição – e talvez razão? – de seu sucesso. o mergulho de 4 minutos que hitou é apenas uma das rotinas de Hall que viralizaram. com 400 milhões de visualizações, deve ser realmente impossível abrir mão da missão de propagandear a disciplina masculina da ultraperformance como uma mensagem divina.
Hall faz parte de um movimento que sinaliza um tipo bastante específico de opulência cara e rigorosa: a mistura intrigante do refinamento estético do universo do wellness com a disciplina espartana da machosfera. são creators que desafiam o divino. verdadeiros Hércules contemporâneos que atuam (ou parecem) semi-deuses de força absoluta, realizando todos os 12 trabalhos em tempo recorde. e o que serve para nós humanos aqui embaixo?… inspiração ou frustração por comparação?
o fato é que 2025 foi povoado por rotinas ideais e infinitos posts de “tudo que eu como em um dia”. sinais irrefutáveis do CULTO ao AUTOCONTROLE, episódio do Vibes em Análise que se tornou o 2º mais ouvido da história do nosso podcast.
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8 * lafufus e a artificialidade autêntica
2025 entrará para a história como o ano dos Labubus. originalmente criados pelo Hasing Lung, designer de Hong Kong, os bonequinhos de pelúcia são comercializados pela marca chinesa Pop Mart – empresa chinesa que ultrapassou a Vale em valor de mercado. a febre mundial se intensificou desde que celebridades como Kim Kardashian e Lisa começaram a ostentá-los por aí.
mas quase tão renomados quanto Labubus são suas (inevitáveis) cópias — ou dupes — os Lafufus. eles surgem em um cenário em que os originais ficaram cada vez mais raros e, por isso, inflacionados com preços que podem chegar a R$1.600 em sites de revenda. assim como os originais, os Lafufus também oferecem uma surpresa ao serem abertos, mas, nesse caso, as surpresas vão além das variações de cor: podem incluir um olho maior que o outro, sorrisos tortos ou qualquer outro tipo de aleatoriedade, resultado da ausência de um “padrão de qualidade” oficial.
dizem que os Labubus já eram, o que será que a Michelle Yeoh fará com sua coleção de mais de 100 (???!!!) monstrinhos? mas o fato é que Labubus foram os herdeiros do título de febre do verão do hemisfério norte, segundo Barbiecore Summer (2023) e BRAT Summer (2024). o que será que teremos em 2026?
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9 * fingir trabalhar
como uma espécie de aspones da vida real, os jovens chineses estão levando o ditado fake it till you make it ou finja até você conseguir a outro nível. são novos coworkings que nascem com o intuito de serem lugares que mimetizam um escritório empresarial. a jogada é tão descarada que uma das empresas que oferecem esse serviço, na cidade de Dongguan, tem um nome radicalmente autoexplicativo: pretend to work company.
os frequentadores desses espaços têm diversos objetivos por trás do investimento nessas mensalidades: uns estão ali basicamente para tirarem uma foto e mandar para os pais, outros para usar na faculdade e comprovar o período do estágio, enquanto outros fazem uso do espaço para aplicar para vagas de emprego. a economia da selfie na sua melhor versão.
tudo isso muito em linha com um problema mundial que acontece no mercado de trabalho, no qual os trabalhos de entrada (ou entry level), aqueles geralmente ocupados por recém-graduados, estão basicamente se extinguindo.
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10 * BRASIL RENORTEADO
ÉGUA, MANA! vira e mexe a cultura nortista do Brasil respinga para o resto do país e dá um respiro pra quem está saturado acostumado com o panorama cultural sudestino atual. só que tem algo diferente no ar. nos últimos tempos, o Norte tem tomado conta do imaginário brasileiro, não como um símbolo monolítico e estereotipado, mas cheio de nuances e paradoxos. não faltam sinais, pipocando como diferentes manifestações culturais, que têm impulsionado orgulho, ineditismo e maravilhamento. estéticas, ritmos e ingredientes têm se tornado códigos do Brasil profundo: atual, interessante e muito, mas muito cool.
é como se o centro gravitacional nacional estivesse entrando no eixo e a bússola cultural apontasse para o nosso Norte. ou assim esperamos. se passamos um tempão desnorteados, esse reencontro com o Norte é mais que bem-vindo.
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11 * arte pós IA
quando a IA consegue escrever músicas, pintar quadros e editar imagens, o que acontece com a arte e o fazer artístico? essa discussão não é nova e muito menos está perto de um desfecho, mas estamos vendo um momento de virada onde a materialidade, o gesto e o erro se tornam uma forma de resistência à estética polida e previsível da automação. uma revalorização do que depende de presença física, tempo e corpo. do que é intrinsecamente humano.
Rosalía exemplifica bem esse momento: no lançamento de LUX, ela contou que chegou a testar ferramentas de IA na composição, mas o resultado foi decepcionante. por fim, o disco foi feito inteiramente por humanos, com instrumentos acústicos, coros e orquestras em uma escolha da artista por complexidade. em um momento em que parte da indústria adota sistemas generativos para produzir conteúdo em escala, a musa defendeu um processo criativo que exige colaboração real e domínio técnico.
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12 * pornografia do extremo
uma trilha de pessoas passando por corpos mortos. um homem dado como morto retorna à vida, mas perde nariz, orelhas e mãos. uma mulher que acabou de passar pela “zona da morte”. um homem se desamarra e escorrega perigosamente montanha abaixo, sem conseguir frear. congestionamento no ponto mais alto da Terra. essas e outras façanhas e infortúnios têm sido divulgados pelos aventureiros do monte Everest no Everest Tok.
há pessoas tentando defender as situações exibidas, dizendo que os vídeos aparecendo no feed de todo mundo não são de agora, ou que não são do cume do Everest, mas de outras partes da cordilheira do Himalaia. mas talvez isso não seja mais suficiente para aliviar a barra dos conquistadores autodestrutivos. talvez esteja na hora de entender que há lugares que não são para o grito dos triunfos pessoais, mas para a quietude da natureza. muitos criadores de conteúdo já começam a perguntar: por que você escolheu estar nessa condição, mesmo sabendo dos riscos?
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e para encerrar, agradecemos de coração a você que está nos lendo agora e a todos os nossos colaboradores, ouvintes, apoiadores e assinantes. coisas acontecem, pessoas mudam e, como 2026 promete, seguiremos vibrando juntos.
boa virada! nos vemos logo mais ❤️ 💚 💙












