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doppelgängers, open de burnout e o desejado fim do mindset bilionário

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uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo

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Andre Alves
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Nina Grando
mar 20, 2025
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doppelgängers, open de burnout e o desejado fim do mindset bilionário
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doppelgängers

innie Helly R. e sua dublê

innies e outies pra quem é de Severance / Ruptura. Eliza e Sue para quem prefere A Substância. Anitta e Larissa para quem é Anitter. Anora e Ímola para quem é das botas brancas do job — ou simplesmente… da internet.

a cisão e a fragmentação do sujeito em duas versões nunca esteve tão pop. se 2024 foi povoado por sósias (os concursos de lookalike viraram até bloco), 2025 é definitivamente o ano do doppelgänger.

a palavra de origem alemã que significa “duplo ambulante” parece cada vez mais presente. em seu livro-viagem pelo mundo-espelho, a ativista e escritora Naomi Klein define o estado atual da duplicação. ou da multiplicação. para ela, vivemos em um tempo no qual cada indivíduo parece ter seu duplo, uma cópia geralmente maligna que segue vagando por aí. no caso de Klein, uma das vozes mais respeitadas entre intelectuais de esquerda global, seu duplo é negacionista, antivacina e difusora de teorias da conspiração — a escritora Naomi Wolf, antes conhecida por livros como O Mito da Beleza e hoje… bom, por ter ido de arrasta-pra-extrema-direita. o livro de Klein é um tratado sobre como, nos tempos terminalmente online, “o eu cuidadosamente construído pode se desfazer de inúmeras formas”.

a ideia do duplo é antiga na cultura, especialmente no cinema: de Possessão a Nós, o monumental filme de Jordan Peele de 2018. no ensaio de Freud de 1919, O Infamiliar, o duplo é "estranho", uma parte de nós que o psicanalista descreve como "pertencente a tudo o que é terrível – a tudo o que desperta pavor e horror assustador". o que nos é in-familiar tem algo de conhecido e de estranho ao mesmo tempo. algo de sinistro e perturbador justamente porque é inquietante familiar.

o que parece mais recente é a premissa de um duplo que aumenta nossas chances de acumular capital, seja social, financeiro e/ou cultural. em um mundo que exige cada vez mais do sujeito, só mesmo o milagre da multiplicação para nos fazer dar conta, dar o truque, dar um show ou um golpe. e por mais perigoso que seja esse jogo, parece que é assim que precisamos jogar daqui pra frente.

é como a internet tratou o filme A Substância: no lugar de refletir sobre o estado atual da ideologia da melhor versão, os memes foram majoritariamente sobre as situações em que “eu tomaria SIM a substância”. parece que nunca estivemos tão seduzidos e tão apavorados com a ideia de múltiplas versões de nós mesmos. como provoca Serena Smith na Dazed sobre a série Severance, no atual estado do Capitalismo Tardio Tarde Demais, estamos todos severed?

The Substance HD Wallpaper: Remember You Are One

dobrando a aposta na duplicação, vai ganhando adeptos a ideia de usar assistentes e ferramentas de IA para gerar clones digitais. se Yuval Harari enxerga a IA como ameaça existencial, a grande maioria vislumbra as oportunidades de negócio. parece o plot de Mickey 17, novo filme do diretor de Parasita, Bong Joon-ho, no qual infinitos clones — ou integrantes — são criados para realizar tarefas perigosas, praticamente suicidas. mas o cinema, nesse caso, parece estar mesmo imitando a vida. menção honrosa para Caryn Marjorie, a influenciadora que criou uma versão de si mesma e fatura milhões como namorada virtual.

com tudo isso, o estado crônico de CYPHORIA está se tornando ainda mais crônico. um mundo em que um papagaio tocando sax não é uma distorção divertida, mas sim um “milagre de Deus”. nesse contexto, diante dos horrores da exploração, da desigualdade, da guerra e do transtorno climático, recorremos a estratégias extremas — ou desesperadas — para lidar com a loucura. como um botão “dissocie em caso de emergência”, seja ela subjetiva, econômica ou ambiental. nesse cenário, o duplo deixa de ser uma narrativa que nos convida a enxergar o que existe de pior em nós, passando a funcionar como uma espécie de anteparo subjetivo, de mecanismo de enfrentamento. ou, simplesmente, um jeito de nos fazer aguentar. nem que seja apenas para ir na academia.

ainda assim, as atuais narrativas de doppelgängers estão tentando nos dizer algo. seja na nova temporada de Ruptura/Severance ou quando Anitta tenta revelar o seu “outro lado”, é como se pairasse no ar um desejo de reintegração. ou, pelo menos, uma elaboração mais profunda sobre o que estamos tentando fazer com nossas partes mais perturbadoras e inquietantes.

Filme Um Homem Diferente (2025)

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