SOLIDÃO PREMIUM
a quem interessa ficarmos mais... e mais... sozinhos?
você chega em casa…
e não tem ninguém te esperando. então você posiciona o celular na mesa e coloca pra gravar. daí você sai por onde entrou, volta e começa tudo de novo, registrando a cena de você abrindo novamente a porta. sua casa parece limpa, silenciosa, aconchegante, seu santuário, tudo na santa paz, do jeitinho que você gosta, do jeitinho que você deixou. e vazia.
é o fim do dia, e você tem certeza de que não precisará interagir com mais ninguém. é assim que começa a maioria dos roteiros dos conteúdos de influenciadores de solidão. (ou o termo certo seria solitude?)
aí vêm a sequência de tarefas mundanas, o cotidiano em toda sua simplicidade: colocar a roupa para lavar (são poucas peças, apenas as suas), desfrutar de incontáveis rituais de autocuidado (quantos cremes a sua pele conseguir absorver em uma noite?), talvez um jantar saudável, mas com uma Coca-Cola zero (em uma taça de vinho pra dar um grau de indulgência). o encerramento do dia é então coroado maratonando de novo uma série antiga bem cringe que você tanto ama (e que possivelmente ninguém ia topar assistir junto com você).
tudo isso acontece, de preferência, numa sexta-feira à noite, lançando algumas perguntas para a Alexa e fazendo muito carinho no seu gato 🐱. e tudo fica ainda mais valioso se você morar em uma grande metrópole, onde supostamente existe tanta gente ao seu redor para você encontrar ou conhecer e tantas coisas para você fazer, mas você escolheu ficar em casa. você escolheu ficar só.
muitas dessas novas influenciadoras são mulheres (que inclusive escaparam de relações abusivas), ou mulheres como @devonandwillo que, inconformadas com o ângulo que alguns jornalistas e críticos culturais têm tratado o assunto, afirmam alguma coisa do tipo:
“sim, estamos sozinhas, mas isso não significa que estamos sofrendo de solidão. a mídia precisa entender isso e parar de achar problemas nisso! queremos quebrar um estigma social e não ter vergonha do fato de que fazemos sim muitas coisas sozinhas. talvez tudo... e daí?”

vamos lá, a provocação é boa.
até porque… será que as únicas cenas da vida que merecem ser registradas, compartilhadas, curtidas (e invejadas) são as viagens intensas e divertidas com sua turma de amigos? ou a pista de dança atrolhada de gente bonita e descolada dando em cima de você? talvez apenas o almoço afetuoso com toda a família reunida? quem sabe o passeio de gôndola em Veneza que só faz sentido se for realizado ao lado do seu grande amor? a resposta é não.
mas vamos considerar que demonizar uma vida solitária, assim como romantizar o sentimento de solidão, são dois becos sem saída.
até porque vale um questionamento: no fim do dia, se você está produzindo conteúdo para exibir ao mundo, não está em busca do olhar do outro? em busca de uma palavra de apoio e aprovação do outro? um emojizinho que seja? ❤️
talvez a cena mais solitária do influenciador de solidão não seja cozinhar para apenas uma pessoa, mas as horas (que a gente não vê) em que esse sujeito criador de conteúdo gasta realocando e reajustando o enquadramento da câmera ao redor da sua casa. então vem o tempo gasto na edição e montagem do seu vídeo-diário, e depois, obviamente, checando como está o engajamento social do seu conteúdo sobre "como é bom estar só". essa jornada toda pode ser o ponto mais míope da Solidão Espetáculo de todos nós: trocar o valor das relações interpessoais pelo gozo de possuir e agradar uma audiência que está validando a sua vida solitária.
só, mas por opção.
para alguns (mais do que outros), socializar exige um esforço hercúleo. por outro lado, ficar só também dá um outro tipo de trabalho, porque exige que a gente aprenda a "pensar e agir por conta própria". é também quando entramos a fundo nos nossos conflitos internos, medos, frustrações, e de alguma forma, evitamos que a proximidade com a demanda do outro seja usada como pretexto para encobrir o nosso próprio desejo.
— afinal, queremos o que queremos ou queremos o que o outro quer de nós? ou ainda, o que o outro quer que a gente queira?
essas distinções fundamentalmente tão lacanianas não são nada simples de encarar, então uma certa dose de isolamento se faz necessária para nos auxiliar nesses cálculos.
suportar alguma solidão é uma oportunidade para reavaliar qual é nossa posição enquanto sujeito na relação com o outro.
e o consumo nisso tudo?
o fenômeno, no entanto, fica bem mais complexo quando consideramos os estudos mais recentes sobre Economia da Solidão, um fenômeno impulsionado pelo avanço do trabalho remoto, do uso excessivo de telas, do isolamento excessivo e da epidemia de ansiedade social que passou a fazer parte da vida de muitos nós, principalmente pós covid-19. essa é a base do famoso tratado do jornalista Derek Thompson a respeito do Século Antissocial.
em síntese, consumidores solitários são mais rentáveis para o mercado. como se o Individualismo Tardio fosse a alma do negócio. para começar, porções menores custam mais caro e são mais lucrativas: é mais embalagem e uma soma maior de transações individuais. é a análise de dados que agora foca em comportamentos singulares e não apenas em recortes demográficos. é o trabalho hiper-individualizado do empreendedor que se orgulha de ser absolutamente solo e interagir apenas com seus agentes de IA. é a publicidade natalina que vende a solidão como narrativa emocional. é a carência emocional sendo mais suprida pela simples conveniência do consumo do que pela complexidade do afeto humano. investimentos libidinais bem insuficientes no lugar de suficientemente bons.
sim, o dia dos namorados é um bálsamo para o mercado e uma data difícil para se fazer reservas em um bom restaurante. mas o mercado também tem aprendido que reviews/críticas escritas por quem foi sozinho a um restaurante ou a um museu (com base em avaliações do Tripadvisor, por exemplo) são considerados mais úteis e confiáveis do que os comentários de quem foi acompanhado. quem vai sozinho costuma estar genuinamente mais interessado na experiência em si, e não está apenas seguindo uma preferência que foi compartilhada ou uma escolha de consumo que foi feita por outra pessoa. ou seja, frequentar e consumir sozinho funciona como um sinal de maior credibilidade do cliente perfil lobo/loba solitário(a).
na Coreia do Sul, a cultura honjok se manifesta como a arte/método de viver bem sozinho, com refeições totalmente individuais em lojas de conveniência ou mesmo karaokês para uma única pessoa. no Japão, rede de ramen Ichiran segue em expansão internacional oferecendo cabines individuais para total “concentração de sabor” e quase nenhuma interação humana com outros clientes e funcionários.
e isso tudo faz bem pra saúde?
estudos da neurociência afirmam que o isolamento social é como se fosse uma forma de "machucar o nosso corpo", porque o cérebro o interpreta literalmente como um perigo à vida. ao longo da evolução, os mamíferos — e especialmente os humanos, que são uma espécie ultrassocial — dependeram tanto de fazer parte de um grupo para sobreviver que o cérebro acabou usando os mesmos circuitos neurais para detectar os perigos físicos e também sociais.
o que já se sabe é que estar sozinho o sentimento de solidão atua como um fator de risco tão potente quanto o sedentarismo, a obesidade ou o tabagismo. falando em tabagismo, a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia.
e falando em vida e morte, no início desse ano, um aplicativo na China deu o que falar pela sua aparência e nome sombrio: Você Está Morto? o conceito é muito simples e um tanto macabro. 👻 você precisa fazer check-in a cada dois dias, clicando em um grande botão na tela do celular, simplesmente para confirmar que "ainda está vivo". se não o fizer, ele avisará o seu contato de emergência, informando que você provavelmente foi dessa pra outra melhor.
voltando ao Japão, o isolamento é tão estrutural à cultura do país que já se tornou um alerta social preocupante, com o fenômeno do Hikikomori: já são mais de um milhão de indivíduos que permanecem confinados em seus quartos de forma extrema, sem sair de casa por períodos de até seis meses.
mas e no Brasil?
tá, mas o nosso país é tão social, gregário, festivo... bom, uma pesquisa recente indica que 35% dos brasileiros se sentem sozinhos sempre ou com muita frequência, e que os números são mais altos especialmente entre mulheres, jovens de 18-24 e classes econômicas mais baixas.
a temática torna-se ainda mais relevante em um contexto de crescentes discussões sobre heterofatalismo, os rompimentos familiares por violência doméstica ou polarização política e a consagração do imperativo do autoamor. além de uma espécie de solomaxxing, ideia embalada por (e para) jovens que acreditam que existe mais paz e estabilidade em estarem solteiros do que aguentar o desgaste de fazer um relacionamento dar certo. "solteiro e ser feliz", hitou Pedro Sampaio no último carnaval.
e aí vêm dados como: 10% dos brasileiros usam chat de IA como amigo ou conselheiro. sim, andamos mais encantados por todo um conjunto de produtos e serviços que não apenas são desenhados para indivíduos cada vez mais sós, mas que simulam formas artificiais de conexão. o mesmo sistema que produz isolamento lucra com soluções paliativas (ou ainda mais danosas para nossa saúde social). é tratar o sintoma sem mexer na causa.
impossível não lembrar daquele depoimento do 2ª indivíduo mais rico do mundo defendendo que os novos features de amizades e companhias digitais geradas e alimentadas por IA "não vão substituir as amizades reais com seres humanos".
é assim que a IA entra como uma suposta "solução" para o gigantesco problema do déficit de intimidade (hoje INTIMIDADE SINTÉTICA), a carência de cuidado e a degeneração do senso de COMUNIDADE.
a Economia da Companhia vai se tornando o estágio final da dependência digital crônica… um verdadeiro golpe de mestre.
apps que alugam “um amigo” por hora, chatbots por assinatura, retiros de influencer prometendo finalmente encontrar a “sua tribo” (só para quem puder pagar), “abraços” virtuais, namorados de IA treinados pra dizer exatamente tudo que você sempre ouvir. a China, sempre precursora, já tomou medidas protetivas (o André Alves comentou um pouco sobre aqui).
para onde vamos?
nos anos 80, a futurista Faith Popcorn profetizou a tendência Cocooning. a verdade é que a vovó das tendências foi motivo de chacota por algumas décadas. hoje, aprendemos como isso é possível e desejável (nem para todos, mas para muitos de nós). pedimos mais comida em casa. trabalhamos mais de casa. temos todo o entretenimento do mundo em casa e na nossa mão, por demanda, ao infinito. temos a sensação de hiperconexão com amigos, conhecidos e estranhos, vestidos ou até mesmo pelados (às vezes é só pagar um pouquinho que eles tiram a roupa).
as inconveniências foram removidas, optamos pelo conforto sem confronto, sem desencontro e com menos deslocamento. a solidão não é um efeito do Realismo Capitalista do Mark Fisher. é um recurso, um feature. e, como vimos, uma oportunidade de milhões.
os pontos de contato com outros humanos, que eram tão cotidianos numa vida minimamente urbana, vêm sendo sistematicamente substituídos por automações e pela hiperconveniência. o rosto familiar do dono da vendinha da esquina foi sendo descartado pelos atendentes rotativos e anônimos das grandes redes de hipermercados, ou pelas máquinas de self check-out, ou por novos robôs amigáveis. como diz Bauman, em sua análise sobre a erosão das comunidades: "foi-se a certeza de que nos veremos outra vez."
e assim, minamos as oportunidades de contatos passivos aleatórios, conversas despretensiosas e espontâneas. lutar contra a solidão exige cuidar de moradia, salário, transporte, segurança pública, os tais dos terceiros lugares que estão erodindo — a "infraestrutura invisível" que permite às pessoas simplesmente esbarrarem umas nas outras e terem alguma interação orgânica e não-transacional.
nos anos 50, o psicólogo Leon Festinger, autor de Social pressure in informal groups, descreveu esse conceito que pode nos ajudar a pensar melhor no contexto que estamos vivendo hoje:
o dilema é complexo e merece reflexão.
hoje, vemos o avanço assustador das relações parassociais com celebridades ou sub-celebridades roubando a libido que investiríamos nas relações interpessoais. vemos os apps de relacionamento não querendo que você conheça ou encontre alguém pra valer (porque assim você vai cancelar a assinatura desses serviços, que ficam cada vez mais caros para entregar uma espécie de concierge de matchmaking).
no fim, é claro que você pode curtir a sua introspecção no topo do seu castelo, a solteirice ou o celibato, não ter filhos, morar só, ser feliz — e até produzir conteúdo sobre tudo isso. a solidão é subjetiva. dá pra estar cercado de muita gente e mesmo asism se sentir só, da mesma forma que dá pra ser alguém muito sozinho na sua rotina diária e se sentir satisfeito com essa decisão. o problema não é tanto estar sozinho por opção, e sim não ter a opção de sair do isolamento quando se quer (ou precisa).
isso porque, mais cedo ou mais tarde, seremos assombrados pelo fantasma da solidão, pelo medo da iminência da solidão.
e não dá pra esquecer da seguinte armadilha: os vínculos interpessoais podem oferecer riscos para o grande projeto de auto-otimização do super-indivíduo. em nome de uma boa relação, é provável que você tenha que abrir mão de algo, se adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. o outro produz atrito, diferença, imprevisibilidade.
então, tratar a solidão como um mal absoluto a ser evitado, uma condição psiquicamente intolerável, também pode ser uma forma de reproduzir o discurso cultural de que precisamos ser independentes e autossuficientes o tempo inteiro. essa é uma ideologia perigosa, uma resposta defensiva e tipicamente neurótica para o fato de que dependemos sim de algum olhar, algum toque, alguma palavra, algum afeto do outro, mesmo que isso nem sempre esteja ao nosso alcance, muito menos na hora e do jeito que a gente quer. como se fosse um botão que a gente aperta, sabe?









Acho que esse texto teria uma perspectiva bem diferente se fosse escrito por uma mulher. Me pareceu em alguns momentos que a ideia de solidão ou não está associada a relacionamentos românticos. Talvez a pergunta seja: porque essas mulheres não querem mais dividir a casa com homens? E não se trata apenas de mulheres que sofreram violências ou algo parecido.
Eu aqui na minha solidão (dias doente sozinha em casa), amando-a, odiando-a, chamando os fantasmas para sentarem à mesa, doida pra ver meus amigos quando melhorar, doida pra ficar só de novo quando a bateria social acabar. Esse texto engloba tudo isso: sobre a complexidade solidão/comunidade. E no fim, concordo, o angustiante é não poder ter pra onde correr quando a solidão bate à porta, e de mesmo modo, não poder correr do social quando ele te exaure.