vigiar e punir, pornô sintético e homens performativos
uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo.
VIGIAR E PUNIR
a ideia é fofa, vai… uma câmera, ao vivo, projeta alguém do público nos telões do estádio enquanto Chris Martin, vocalista do Coldplay, improvisa uma letra ao vivo para os fãs que tiverem a sorte de serem capturados. JumboTron song, ou música do Mega Telão em tradução livre. um casal se esquiva (embora tarde demais) da mira da câmera. alguém filma o momento interativo do show e pronto, o resto é história: amantes c-level da mesma empresa pegos no flagra e queimados na praça pública da vila global. é a sociedade do espetáculo, só que sem consentimento e com amplificação mundial, em segundos. até viraram estampa camiseta: MAPA: MAKE AFFAIRS PRIVATE AGAIN.
desde então outros flagrantes vêm nos lembrando que o grande irmão está sempre sempre de olho (e o tribunal da internet pronto pra julgar 24/7) – para o bem ou para o mal. o milionário flagrado tomando o boné autografado de um menino e tendo que pedir desculpas após a nota da sua empresa despencar no Google e no trustpilot depois do “descuido.” a ultra-karen exigindo a sua bola de beisebol – mesmo ela sendo pega por outro cara – e acordar sendo odiada pela internet. nem os ricos escapam da roleta-russa da vigilância.
advertências não faltaram. se em 1977 Marshall McLuhan já afirmava que era possível manter qualquer um sob vigilância, imagina só hoje quando cada um leva seu próprio espião no bolso e as câmeras estão por toda parte. corta para 2020, quando vazaram dados dos inofensivos robôs aspiradores (que ganham nomes e viram parte da família) que mostram como eles reconhecem seus ambientes e coletam os dados mais íntimos de milhares de lares, melhor do que qualquer pesquisa do censo poderia imaginar. o sonho de consumo das big-techs. é o capitalismo de vigilância, que Shoshana Zuboff nos havia avisado, só que a gente tá amando 🥹, e amando odiar.
enquanto tem guia de como protestar na era da vigilância, a estética da vigilância ganha toda uma aura cool e chic. a demonstração no show do Massive Attack que usa reconhecimento facial, como crítica, foi compartilhada por muitos como algo divertido e interativo. a surveillance art que vinha como comentário à vigilância é esvaziada e vira estética. hoje vemos editoriais de moda com marcações de machine vision, vídeo-clipes com captação de telas, e pornografia filmada por câmeras de segurança. Agus Panzoni chama de estética do panóptico, em referência a Foucault em vigiar e punir: quando a vigilância passa a ser a principal forma de poder. somos observados sem ver quem nos observa.
fomos convencidos de que tudo bem ser vigiado em nome da conveniência. cookies aceitos, find my friends ativado, compartilha a geolocalização, selfies com local taggeado. a economista e poeta Zoë Hitzig escreveu sobre como “começamos a celebrar a vigilância como uma forma de intimidade.” uma espécie de síndrome de Estocolmo, em que a gente aprendeu a amar e se relacionar com as ferramentas dos nossos sequestradores. além de uma submissão ainda maior às big techs, essa hipervigilância tem mudado como a gente se relaciona. cria-se uma dinâmica de FOMO e sem espaço para segredos, uma busca constante por validação quantitativa quando a qualitativa já não dá conta. e o efeito Hawthorne engatilhado: mudamos nosso comportamento quando percebemos que estamos sendo observados.
enquanto ignoramos a existência da privacidade e esse conceito tão distante se dissolve na memória, as big tech têm tentado enfiar goela abaixo que a próxima tendência são os smart glasses – e falhado miseravelmente desde 2014 com o flop dos Google Glasses e agora com o mico do lançamento dos Meta Ray-Ban. este último mal foi lançado e já tem homem preso por filmar mulheres sem consentimento na Espanha e uma balada banindo esses dispositivos depois de um cara filmar por baixo da saia de uma mulher. no fim do dia, não somos apenas cúmplices da cultura da vigilância, mas parece que nos tornamos também espiões de última geração das vidas alheias.










