VIBES: BRASIL RENORTEADO
a pororoca criativa que nasce do reencontro do país com o seu Norte.
BRASIL RENORTEADO é uma VIBE da floatvibes co-assinada por Rodrigo Turra, pesquisador de alma curiosa e fundador do The Nexialist.
ÉGUA, MANA! vira e mexe a cultura nortista do Brasil respinga para o resto do país e dá um respiro pra quem está saturado acostumado com o panorama cultural sudestino atual. são os memes de Leona Vingativa, a Jamburana de Dona Onete, o hype do Jalapão e o crescimento do turismo no Tocantins, a deliciosa discografia de Jaloo, o revival do tacacá de Joelma. de certa forma, como diz o hino, o Brasil inteiro está voando pro Pará. e também para o Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá, Tocantins e pro Acre.
claro, nem tudo são flores e, na cabeça de muitos, falar do Norte do país é lembrar de mazelas que tomaram as manchetes recentemente. a crise humanitária na terra yanomami, o pulmão do mundo sem oxigênio na pandemia, desaparecimentos de ativistas e indigenistas, e até o céu vermelho no resto do país, consequência das queimadas na região.
“nós conhecemos o Brasil. o Brasil não nos conhece” — fala viral de Dira Paes, atriz e diretora paraense
só que tem algo diferente no ar. nos últimos tempos, o Norte tem tomado conta do imaginário brasileiro, não como um símbolo monolítico e estereotipado, mas cheio de nuances e paradoxos. não faltam sinais, pipocando como diferentes manifestações culturais, que têm impulsionado orgulho, ineditismo e muito maravilhamento. estéticas, ritmos e ingredientes têm se tornado códigos do Brasil profundo: atual, interessante e muito, mas muito cool.
é como se o centro gravitacional nacional estivesse entrando no eixo e a bússola cultural apontasse para o nosso Norte. ou assim esperamos. a questão é que, se passamos um tempão desnorteados, é oportuno esse reencontro com o Norte.
o isolamento geográfico da região, que é muitas vezes nomeado como empecilho, tem suas vantagens: culturas que se preservam e também se misturam de formas originais, surpreendentes, pulsantes; sem ficarem paradas no tempo ou se diluir, permitindo reinvenções e reinterpretações.
mas fica a pergunta do porquê, nesse momento, tanta gente parece mais aberta à cultura nortista? a cena cultural da região sempre foi riquíssima e ativa, mas só agora o Brasil parece reconhecer o Norte como parte essencial nossa. se você não-nortista tem pelo menos um amigo do Norte, você sabe.
a Amazônia é Pop, e o bagulho é doido
enquanto tem diva pop indo pro espaço, há de se admirar o sonho febril que foi Mariah Carey em cima do palco-vitória-régia no meio do rio Guamá. #amazonialive, evento que marcou a contagem regressiva para o COP30, também recebeu grandes ícones paraenses como Dona Onete, Joelma, Gaby Amarantos e Zaynara. e chamou a atenção nesse line-up poderoso: intergeracional, feminino e local.
o mesmo esforço se repetiu no The Town, em São Paulo, quando Joelma entregou um dos melhores shows do festival, que deixou a plateia vibrando e a internet com a boca tremendo. a artista levou ao palco parte dessa constelação, com participação de Gaby e Dona Onete, enaltecendo a cultura paraense.
mas talvez o maior tremor musical tupiniquim do ano de 2025 seja o ambicioso Rock Doido, álbum visual de Gaby Amarantos que arrebatou a internet e deixou o povo doido. o retorno da diva amazônida e grammy winner nos transporta para o maravilhoso mundo das aparelhagens, um álbum vibrante e visualmente deslumbrante que agradou a audiência e a crítica – aclamado inclusive internacionalmente. Gaby está na mesma trilha de outro ícone latino, Bad Bunny: quanto maior seu sucesso, mais local ela parece (e vice-versa) – Anitta também. mas com uma capacidade muito amazônica de nos tontear.
em tempos de EFEITO MID e de tantas referências ao minimalismo colonial (alô, clean girls e princesas do pilates), Rock Doido insiste em uma sonoridade diversa e original – vocal inconfundível, cheia de samples, interpolações, ironia, referências meméticas, folclóricas, pop ultralocais, globais e até espirituais. é o mais puro suco caldo de Brasil, saído direto do caldeirão cultural que é o Norte: de culturas plurais e enraizadas no pensamento ameríndio, afro-amazônico, ribeirinho, quilombola e também urbano.
sem falar em como o filme funciona como uma masterclass de verdade e originalidade. uma produção apoteótica, com um plano-sequência de 22 minutos, filmada com celular, envolvendo 250 pessoas e sabe-se-lá quantas trocas de figurino, além de juntar artistas, coletivos, personalidades e festas da região. mais uma demonstração clara da potência do Norte, da engenhosidade do coletivo, e que de novo reforça a máxima de que a maré alta levanta todos os barcos. como se diz na aparelhagem, endoida caralho!
Antony Fontano analisa Rock Doido, vale ler os comentários:
fome de realidade

nessa Era de INTIMIDADES SINTÉTICAS, das imagens ultraprocessadas e da hiperotimização e achatamento da cultura, Rock Doido entrega uma dose cavalar de “feito-por-humanos” – com fricção, imperfeição e dedicação, que deixam o trabalho ainda mais envolvente e sedutor. vai na linha de marcas de outros lugares do sul global que estão em uma verdadeira batalha contra a obsolescência humana.
o colunista James Marriott menciona a “fome de realidade” e faz uma provocação, que parece ser o caso aqui: “num futuro inundado de conteúdos produzidos por máquinas, poderemos atribuir um valor mais elevado do que nunca à arte humana.” Rock Doido é o futuro.
com 87% da população vivendo em zonas urbanas (IBGE, 2022), o Brasil é considerado um país urbanizado. então faz sentido que agora, mais do que nunca, estejamos tão desejantes do natural e com olhos e mentes mais atentos às culturas amazônidas. mas o buraco é mais embaixo.
um estudo de 2017 mediu a desconexão com a natureza de um jeito inusitado: mapeou menções à natureza em produções da cultura popular de língua inglesa entre 1900 e 2010 – literatura, cinema e música. apesar do processo de urbanização ter começado bem antes, as menções caem a partir de 1950, o que coincide com a expansão da oferta de recreação virtual e em ambientes fechados, como a TV e o videogame. a culpa se desloca da urbanização para as telas. e isso deve se aplicar por aqui, afinal, o brasileiro passa mais tempo nas telas do que dormindo.
o excesso do virtual e do artificial se sustenta na quebra ecológica eu ≠ natureza, que vem se cristalizando há séculos. o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos fala sobre como “ao apartar os humanos da natureza e criar a imagem de um Deus terrorista, a Bíblia deu origem à cosmofobia, um regime monoteísta em que só cabe um modo de existir no mundo.”
e talvez venha daí essa atual força latente de prestar atenção nas vozes do Norte, marcadas pela pluralidade, pelo ancestral, pelo natural, e quem sabe a força oposta da cosmofilia.
até na arena pop global temos sinais de que #natureishealing: o novo álbum da sueca Zara Larsson, um dos álbuns favoritos do ano, parece ter tomado nas fontes do batidão tropical em sua estética Y2K e solar. sem falar nos shorts beira cu. o hit que dá nome ao álbum, Midnight Sun, é uma ode à natureza: o sol que nunca se põe no alto-verão sueco, a proteção da lua e das estrelas, longe da cidade e andar descalça na grama são parte do romance perfeito que não pode acabar. outras faixas até entram na vibe do PROIBIDÃO PLANETÁRIO e incorporam o funk sem dó. ainda bem.
temporalidade pororoca
para além do som e da estética, o BRASIL RENORTEADO também pode ensinar muito aos tempos da urgência e da imediatez graças às temporalidades amazônicas. afinal, nos saberes ancestrais, a passagem do tempo é medida de outras formas para além do relógio: pelos rios terrestres e voadores, ciclos de cheias e vazantes, a chuva que divide o dia, além do calendário de festividades locais e das narrativas indígenas/quilombolas. isso tudo influencia profundamente o jeito de fazer as coisas.
é isso que nos mostram, por exemplo, as joias de Barbara Muller inspiradas na flora e na fauna do Pará. ou o designer Maurício Duarte, do Amazonas, em trabalhos que valorizam a sabedoria de seus ancestrais amazônicos e que integram materiais éticos e métodos artesanais que respeitam o meio ambiente
o inconsciente coletivo também vem pescando esses elementos de outras formas subliminares. lá em 2009, Brega S/A, documentário independente de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, já queria contar para o resto do mundo que tinha algo de especial acontecendo na cena do tecnobrega e das aparelhagens.
[BREGA S/A. Documentário de 2009]
como nos mostra o doc, o Brega é um universo gigante, paralelo à indústria fonográfica formal, com produções feitas em estúdios caseiros via softwares piratas e distribuição por vendedores ambulantes informais, dominando grandes festas rave na região. em sua urbanidade ribeirinha, o tecnobrega é artefato de inovação periférica e oferece também uma forma descentralizada de pensar cultura, refletindo a relação entre música popular, tecnologia digital e desigualdade urbana.
[Amplified Roots, Episode 1: Tecnobrega in Belém]
corta para 2024: o Boiler Room traz uma atualização da cena tecnobrega para o mundo, contada por quem a produz. uma indústria que, apesar de mais madura, continua autêntica, centrada na comunidade e sem perder sua essência (e com desejo de crescer ainda mais). “a gente distribui a nossa música através do rio,” contou Zek Picoteiro, DJ e pesquisador de música amazônica. e em 2025 parece que esse rio está prestes a desaguar no mainstream, feito pororoca.
vamos combinar que em tempos de tecnocracia, tecnofascismo, tecnofeudalismo, talvez o jeito de fazer do tecnobrega seja o norte que precisamos no momento: tecnológico e local, futurista e ancestral, coletivo e autoral, sampleado e original.
audiovisual como portal
o audiovisual nacional também tem seguido e impulsionado este belo despertar: dois longa-metragens brasileiros mostraram a vida dos ribeirinhos, e estão ganhando prêmios e indicações em grandes festivais ao redor do mundo. O Último Azul de Gabriel Mascaro traz uma amazônia distópica e fantástica, fazendo crítica ao etarismo. Manas de Marianna Brennand, ovacionado e aclamado por sua abordagem profunda e delicada, denuncia abuso familiar e exploração sexual.

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na Netflix, a série Pssica baseada no romance do autor paraense Edyr Augusto, se tornou a série brasileira mais assistida na Netflix e se manteve no top 10 global por pelo menos 4 semanas. nela, conhecemos uma Amazônia linda porém violenta e uma denúncia do tráfico de meninas e mulheres. fora do Brasil, o jornal The Guardian lançou Missing in the Amazon, um podcast investigativo que conta sobre o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, que escancara as disputas na região. teve até um giro na centrífuga nostálgica de Hollywood com o reboot de comédia de Anaconda, com participação de Selton Mello e trilha de Nicki Minaj.
algumas dessas narrativas reforçam a imagem de uma região perigosa, selvagem demais, cheia de riscos. terra de ninguém. isso pode até espantar, mas também expõe realidades duras que vão além da romantização, da demonização ou da armadilha colonial do exotismo.
por isso é bom lembrar que existem histórias que vão além: a Sommos Amazônia, plataforma de streaming, reúne um catálogo de mais de 40 mil filmes, livros e músicas da região, na intenção de amplificar e difundir a cultura amazônida. prova da riqueza de cenários, de histórias, de diversidade, de capital humano. é aquela Amazônia misteriosa e remota, escondida entre rios e copas, que vai ganhando cores, camadas, sons e nuances caleidoscópicas. é a região amazônica insistindo em não topar os ideais de exotismo para assumir um lugar de protagonismo.
a Amazônia na moda (e na cuia)
saindo das telas e indo para o material, o Norte entrou nos moodboards com força. a FARM Rio recentemente anunciou a coleção Amazonikas, colaborando com quatro artistas visuais locais, destacando as diversas amazônias que coexistem. e em abril deste ano, a Dendezeiro desfilou no SPFW a coleção Brasiliano 2: A Puxada para o Norte, referenciando a fauna e flora da amazônia, com direito à bolsa em formato de capivara ou boto cor-de-rosa. a questão inevitável nessa onda é: quem mais lucra com isso?
a Tucum tem oferecido um caminho possível: um e-commerce socioambiental com precificação transparente que oferece arte indígena de diferentes artesãos e tribos para o resto do Brasil, em forma de roupas, acessórios, objetos e decoração, destacando as diferentes culturas indígenas.
e o resto do mundo está de olho. enquanto a Vogue Business destacou estilistas amazônidas e suas lições para marcas globais, o fotógrafo paraense Rafael Pavarotti tem emprestado seu olhar para o universo fashion. é através de suas lentes que temos imagens icônicas de nomes como Beyoncé, Rihanna, Harry Styles e mais recentemente, Addison Rae. ele foi votado como uma das pessoas moldando o futuro da indústria da moda global.
o mundo da arte também começa a acordar para a região. com destaque nacional, a 2ª Bienal das Amazônias traz 74 artistas e coletivos de oito países Pan-Amazônicos para Belém este ano. fora do Brasil, a Bienal de Veneza recebeu Manauara clandestina (também vale ler a matéria da Piauí), artista de Manaus que também está na 36ª Bienal de São Paulo. a Americas Society apresenta em NYC Amazonia Açu, exposição com 34 artistas e coletivos que destacam as diferentes identidades, histórias e tradições da região.
no prato e nos drinks, os sabores amazônicos vêm se tornando mais conhecidos e desejados, com a cozinha nortista ganhando espaço no resto do país com aura cool – para além do tacacá e da cachaça de jambu, agora é mais sobre pato no tucupi, maniçoba, pirarucu, x-caboquinho e peixe frito com açaí. o Norte fisga também pelo estômago. os chefs do TikTok que o digam.
COP30: o elefante branco na sala?

em 2023 foi confirmada a COP30 em solos paraenses. o evento global e anual das Nações Unidas une 195 países para discussões e negociações sobre as mudanças climáticas. programado para novembro, o encontro se aproxima entre trancos e barrancos: crise de acomodações com preços exorbitantes, falta de representação amazônida nos eventos off-COP e a construção da via que causa desmatamento e interfere nas comunidades locais. a fama de cortina de fumaça não ajuda: a própria UNFCCC, criada no Rio Earth Summit em 92, teve mão da indústria de combustíveis fósseis.
por outro lado, a oportunidade é pra ser desfrutada. coletivos e indústrias locais aproveitam o ensejo da inevitável conferência para uma virada de chave. inevitavelmente, é uma grande lupa sobre a região, gerando curiosidade e interesse, nacional e global, nos mais diferentes segmentos. o recente relatório O Brasil que o Brasil quer ser, um dos mais amplos e profundos estudos identitários já feitos, mostra como estamos diante de uma oportunidade histórica: do Brasil se consolidar como um país de protagonismo global, principalmente no que tange ao campo socioambiental.
e não dá pra fazer isso sem o soft power do Norte: intenso, suado e acolhedor tal qual um tacacá quentinho, desses que ficam na memória.
mas e na prática?
a cultura regional, com suas festas tradicionais, tem atraído cada vez mais visitantes (inclusive internacionais). o Círio de Nazaré reúne 2.5 milhões de pessoas e o Festival de Parintins chegou a receber 120 mil turistas em 2024. festivais mais jovens como o Psica têm se estabelecido no circuito nacional, celebrando a cultura pan-amazônica e convidando nomes de peso, com 85 mil visitantes em 3 dias.
e também tem atraído escrutínio. Sumaúma foi fundada em 2022 para fazer “jornalismo do centro do mundo,” com sede em Altamira, no Médio Xingu – epicentro da destruição e da resistência da floresta. colaborando com jornalistas e rádios locais, jornalistas conhecidos como Eliane Brum se mudaram para a região, para estar na linha de frente da guerra que é a emergência climática. o portal independente publica em português, espanhol e inglês, trazendo vozes locais e cobertura apurada, direto da região para o resto do mundo. Brum foi inclusive eleita como uma das principais pensadoras para 2025.
o ativismo local tem atravessado fronteiras também pela influência e pelas plataformas de artistas que não são da região, projetando mensagens de conservação e direitos humanos. isso acontece apesar da desconfiança inevitável e compreensível – e muitas vezes equivocada – de apropriação cultural.
a Anitta tem sido vocal sobre a causa indígena e de demarcação e é criticada, apesar de fazer isso a convite de instituições e tribos locais. DJ Alok, um dos nomes brasileiros com projeção no mainstream eletrônico global, lançou o projeto “The Future is Ancestral” com 60 músicos indígenas e com os royalties revertidos aos músicos indígenas. a frase ecoa o pensamento de Ailton Krenak e mostra como o pop pode também ser informado pelo pensamento ancestral e movimentar mudanças.
Norte nacional > Norte global
BRASIL RENORTEADO não é uma trend passageira ou um spin-off do #brazilcore, mas sim um movimento que vem sendo construído há anos por vozes e comunidades locais. a oportunidade que se abre aqui é a de aprender, apoiar, desfrutar e se inspirar com tanta beleza e complexidade. e daqui em diante, finalmente reconhecer o Norte do Brasil como epicentro da cultura brasileira.
a COP30 (e essa vibe) tem focado bastante no Pará, mas ela serve também como um convite a treinar nosso olhar para a pluralidade do Norte com suas manifestações culturais diversas: o rap/trap do Acre, as festas quilombolas do Tocantins, a literatura do Amapá, e das cosmovisões que chamam Roraima de terra de Macunaíma (e tantas outras).
na performance multimídia Altamira 2042, Gabriela Carneiro da Cunha conta a história de um futuro distópico, da guerra acontecendo entre duas forças: progressistas e aliendíginas. progressistas são aqueles que querem transformar o mundo em desertos e somente o seu modo de vida é válido. os aliendíginas entendem que a pluralidade da vida é necessária. a missão? Amazonizar a Amazônia para amazonizar o mundo. é tempo de renortear o Brasil.

















o timing dessa vibe é tão quente que queima <3
que edição maravilhosa!! E amei ver o Turra aqui.