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rituais de humilhação, a era low profile e os cantos gentis da internet

uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo.

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Andre Alves, Lucas Liedke, Maria Clara Villas, e Nina Grando
ago 25, 2025
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pequenos rituais de humilhação

o termo humiliation ritual começou em fóruns conspiratórios da extrema-direita com a ideia de que celebridades seriam forçadas a se submeter a situações constrangedoras como prova de lealdade a ~elites ocultas. agora ganhou outro sentido na cultura pop: um jeito de nomear a sensação de que, na internet, tudo tem um quê de performance embaraçosa. CRINGECORE alçando novos vôos e, como escrevemos no VIRALISMO, habitamos as terras da Clown Town, uma perturbadora arena de palhaços .

@0mishhaI just dont gaf 😭😭😭✌️😂
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na lógica do algoritmo, cada post é uma aposta: será que rende? será que vão rir de mim ou comigo? na prática, topamos ambos sem nos darmos conta do que exatamente estamos topando. P.E. Moskowitzl, em um texto recente na GQ, argumenta que apesar de ser um tanto problemática em sua origem, rituais de humilhação tentam dar conta de uma ferida real. as plataformas digitais transformaram nossa vida em um grande labirinto de espelhos. entramos para nos expressar, mas o que vemos são refrações distorcidas: o Eu que gostaríamos de mostrar VS o Eu que o algoritmo favorece VS o Eu que os outros projetam.

no fim do dia, é comum sairmos fragmentados, confusos e um pouco mais achatados. ou com nossos EGOs ALTERADOS, prontos para os jogos da Era do Ruído e do Capital-Conteúdo.

o esquema todo cheira a perversão e exploração: big huge techs como Meta e X dependem de estímulos fortes como raiva e vergonha para manter a roda girando. o resultado é que a própria visibilidade se confunde com degradação. a cada post, entregamos mais um pedacinho da nossa dignidade para o algoritmo traduzir em cliques, dados e, claro, lucro.

@subwaytakesEpisode 193: Humiliation is good for you!! feat Nicolaia Rips 🚋🚋🚋🚋🚋 @H&M #ad Hosted by @KAREEM RAHMA Shot by @Willem Holzer @Ramy Edited by Tyler Christie #podcast #subway #hottakes #subwaytakes #interview #nyc #humiliation #fashionweek #nyfw #embarressing
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a noção de que “tudo é um ritual de humilhação” não precisa necessariamente ser lida como conspiração. talvez seja mais uma espécie de diagnóstico: vivemos num sistema em que sermos vistos exige, quase sempre, algum grau de constrangimento, com mil MOTIVOS DE VERGONHA. da dancinha forçada no TikTok à confissão íntima que rende engajamento, a regra é clara: quanto mais exposto, mais recompensado.

e, ainda assim, há brechas. Moskowitz sugere uma forma de resistência quase banal: permitir-se ser cringe fora da lógica de monetização e fazer essas coisas fora da timeline. errar, escrever para si mesmo, cultivar espaços que não cabem no feed. talvez a saída esteja menos em tentar destruir as mídias e mais em reaprender a não performar o tempo todo para elas — mesmo que a performance seja de humilhação. talvez seja uma estratégia de

o problema é que, nesse sistema, a ~elite oculta que dá as regras é exatamente o algoritmo, que não sabemos como funciona, mas que recompensa sim a auto-humilhação. ou de auto-destruição. essa é a história da influenciadora russa Marina Barutkina que fraturou a coluna ao tentar reproduzir o desafio viral "Stiletto Challenge", que consiste em recriar uma pose de Nicki Minaj usando salto alto. ou mesmo o trágico episódio do creator francês que morreu após agressões físicas transmitidas durante 289 horas.

nessa batida, os rituais de humilhação tonarm-se uma combinação explosiva dos Rituais de Sofrimento dissecados pela Silvia Viana com a pornografia dos extremos, um empuxo a viver a euforia que é oferecida pelo risco e pela constante superação de limites físicos e mentais. ou pelo absurdo em velocidade x2.

em um mundo sufocado por algoritmos e conteúdos pasteurizados que ecoam online, a conformidade reina suprema. dessa forma, os rituais de humilhação se intensificam com o objetivo de quebrar a monotonia e, ao mesmo tempo, funcionar como uma evitação ao prazer, à construção de sentido e até mesmo de autopreservação. rituais de humilhação são o produto da Economia do Gozo com o Sonho da Megaescala. e nesse vale tudo da viralidade, vale até ser intencionalmente e perigosamente ~cringe.  

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Maria Clara Villas
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