goonificação cultural, mendigo deepfake e gays trambiqueiras
uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo.
a cada newsletter, a editoria do memes & trends em análise da floatvibes é feita por diferentes pesquisadores convidados. dessa vez, a curadoria foi do Rodrigo Turra, pesquisador de alma curiosa e fundador do The Nexialist.
goonificação cultural
contexto para leitores gen x / millenials / xennials: não, isso não é sobre o filme Os Goonies. goon, em uma tradução livre, seria algo como bobo, bobão. mas tem um tempo que o termo correu diferentes cantos da internet e dos fetiches numa outra significação — gooning é ficar tão transfixado em um pornô que se entra em um estado quase hipnótico. o masturbador se entrega ao prazer em loop de tal forma que os olhos rolam pra cima, a língua pra fora, saliva escorrendo pelos cantos da boca 🤤. o termo gooner virou até rótulo carinhoso para criadores de conteúdo adulto (e outros) que praticam essa modalidade.
para além do kink-shaming, a goonificação extrapola o pornô e toma toda a cultura de assalto, como bem pontuou brogan woodman. em 2024, o historiador e crítico musical Ted Gioia diagnosticou a cultura da dopamina e como ela esvazia a arte e o entretenimento para promover a distração e a adicção. “sua característica mais marcante é a ausência de Cultura (com C maiúsculo) ou mesmo de entretenimento fútil — ambos são substituídos por atividades compulsivas.”
o Office of Applied Strategy chama esse movimento de hiper-otimização, a estagnação criativa em meio à abundância cultural: “a cultura tornou-se tão otimizada para o consumo que, ironicamente, a própria criatividade se tornou mais escassa do que nunca, um bem de luxo… a cultura atual é tão autoconsciente, automimética e autorreferencial que consegue gerar infinitas variações de si mesma a uma velocidade vertiginosa.”
é o poço de nostalgia que virou a internet e as grandes produções audiovisuais, franquias, remakes, sequels/prequels que não nos permite seguir adiante, uma eterna fadiga retromaníaca das franquias — ou punheta cultural. o resultado? um eterno agora. é o colapso do contexto dos nossos feeds dopaminérgicos: pets fofos, seguido de rage-bait, seguido de violência e guerra, seguido de um corpo perfeito que você nunca vai ter. e a constante pergunta se o conteúdo foi ou não gerado por Inteligência Artificial.
é o colapso do modelo: a degradação dos ideais promovida por IAs que já são treinadas com substrato sintético, ruminando e regurgitando conteúdo ainda mais ultraprocessado. é a deterioração da rede com o ciclo de merdificação/enshittification quando os canais (ou algoritmos) se rendem ao que dá audiência/lucro em detrimento da qualidade. é o brain-rot, o AI-slop, o pornô sintético.
Eugene Healey, estrategista cultural, recentemente refletiu sobre como o conteúdo é a nova pornografia. “nos tornamos voyeurs digitais, excitados não por corpos, mas por performances de identidade.” nossa busca por entretenimento nas redes sociais, borra o real e o ficcional, confundimos viralidade com realidade.
Healey chega a invocar o Lacan em sua análise: o perverso não é apenas quem tem desejos “fora da norma,” mas alguém que organiza toda a sua relação com o mundo a partir do olhar do Outro. na vida perpetuamente online, nossa única certeza é a que somos todos, ao mesmo tempo, exibicionistas e plateia. em resumo, somos todos gooners. 🤤









