floatvibes

floatvibes

estetização da violência, validação tiktokiana e bolsas da desconexão

uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo.

Avatar de Andre Alves
Avatar de Lidiane da Silva
Avatar de Lucas Liedke
Avatar de Nina Grando
Andre Alves, Lidiane da Silva, Lucas Liedke, e Nina Grando
nov 29, 2025
∙ Pago

estetização da violência

Photo

o efeito Tremembé reacendeu um velho hábito brasileiro: transformar crimes reais em narrativa coletiva. a série chegou com estética de thriller, montagem acelerada e depoimentos lapidados como dramaturgia, e o público assume o papel de júri, analista e comentarista jurídico, tudo ao mesmo tempo. o que parece só mais um true crime evidencia algo mais profundo: a necessidade de traduzir o medo em narrativa inteligível. no streaming, o trauma vira episódio; nas redes, vira debate, meme, teoria e diagnóstico. a violência se converte em conteúdo compartilhável, e o comentário vira parte do ritual.

essa estética do crime depurado coloca a audiência em um novo tipo de participação: não buscamos apenas informação, buscamos sentido. cada plano, cada reconstituição, cada silêncio vira pista. sob a lente da semiótica, Tremembé funciona como um grande operador de interpretação coletiva: organiza o caos moral, permite projetar fantasias de justiça e fornece uma gramática para falar do que nos assombra.

e é aqui que o fenômeno fica mais interessante: o consumo da violência não é só entretenimento, talvez também seja uma forma de domesticar o pânico social. a série cria espaço para discutir responsabilidade, impunidade e medo (e também para estetizar o crime). a pergunta que permanece é incômoda: quando a tragédia vira produto premium, estamos elaborando feridas sociais ou apenas performando familiaridade com elas?

Tremembé aponta para uma cultura que tenta produzir sentido em cima do absurdo. se o real é incontrolável, transformá-lo em narrativa é uma forma de negociar nossa própria vulnerabilidade. e, no fim, talvez o que esse fenômeno revela não seja nossa curiosidade por crimes mas nossa urgência de lidar com um país onde a linha entre ficção e cotidiano segue perigosamente tênue.

Avatar de User

Continue a ler este post gratuitamente, cortesia de Andre Alves.

Ou adquira uma subscrição paga.
Avatar de Lidiane da Silva
Um post convidado por
Lidiane da Silva
pesquisadora periférica e mestre em semiótica. Lidera um projeto de observação sobre consumo, e estética. Gosta de investigar os desejos coletivos do nosso tempo, e de decifrar o que a cultura diz, mesmo quando achamos não dizer nada.
© 2026 floatvibes · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de cobrança
Comece o seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura