comunidade Reborn, Sabrina Carpenter no Fortnite e Grupo de chat entre garotas
uma breve seleção de objetos culturais, linguagens, casos e fofocas que você não sabia que queria ficar sabendo.
comunidade Reborn e o desejo de cuidar
o que era uma brincadeira de criança virou assunto sério entre adultos: a comunidade reborn não para de crescer nos cinco cantos do Brasil. e também não para de despertar reações de todos os tipos. de cara, é comum um certo estranhamento ao assistir aos novos tipos de conteúdo que estão circulando; ou se deparar com um desses bonecos hiper-realistas em um passeio no shopping; ou descobrir que existem simulações de gestações e partos; ler sobre a mulher que se declara mãe de 250 bonecos; ou simplesmente ficar sabendo que o padre Fábio de Melo adotou uma bb reborb portadora de síndrome de down em uma maternidade estadounidense. e, claro, que Britney Spears levou o dela pro México.
muita gente tem reagido com choque, repulsa, e até com uma pontinha de medo (mais dos pais do que das crianças)… mas o que será que todo esse desconforto também diz sobre o atual estado das coisas?
criança brincar de boneca é “normal” (em geral só para meninas, né, como bem manda a Norma). é sobre soltar a imaginação, projetar sentimentos, inventar uma possível futura função materna. mas quando uma mulher adulta se dispõe a trocar a fralda de um bb reborn com todo cuidado e seriedade, parece que alguma coisa dá bug no sistema e estamos entrando em um episódio de Black Mirror. ou uma versão muito avançada da clássica personagem de David Lynch em Twin Peaks, a Log Lady.
e aí vem o open de perguntas/julgamentos: por que investir tanto tempo e dinheiro em uma ilusão de afeto? essa pessoa não tem mais o que fazer da vida? não deveria estar trabalhando/produzindo? por que cuidar de protótipos de crianças enquanto existem tantas crianças de carne e osso precisando de cuidado?
olhando por um ângulo diferente, a internet está repleta de crianças humanas que têm sido expostas e humilhadas na internet por cuidadores que transformam seus filhos em verticais de conteúdo. lembra da menina do suco kapo? ou do menino chorando porque o ovo de páscoa tava caro — e os pais acharam de bom tom compartilhar o seu sofrimento? ou da garota que, em acesso de raiva e inveja, puxa o cabelo da aniversariante?…se você não lembra, melhor nem lembrar mesmo. mas se você quer ir mais fundo, vale assistir a série da Netflix e o videocast da Taylor Lorenz sobre influenciadores mirins.
enquanto os reborns causam estranhamento por serem “bonecos tratados como filhos”, talvez seja fundamental pensarmos em como muitos cuidadores vêm tratando seus filhos de carne e osso como brinquedos, “props” do entretenimento crônico.
recentemente, alguns casos de crueldade contra crianças atrás de likes ganharam repercussão mundial, como o de Ruby Franke, a mãe youtuber que foi presa por maus-tratos aos filhos e teve sua história contada em um documentário recente: Devil in the Family: The Fall of Ruby Franke.
nesse contexto, o reborn aparece como uma chance de ser pai ou mãe sem culpa, o famoso poder fazer o que se bem entende: aqui, ninguém erra tão feio assim, porque tudo é faz de conta. o “pior crime”? projetar a voz das bonecas em diálogos complexos em situações tão cheias de detalhes que fariam até os roteiristas de Beleza Fatal morrerem de inveja.
bbs reborn talvez não fossem um fenômeno social tão contagioso se não tivessem o seu valor como capital-conteúdo, mesmo que seja pela combinação um tanto estapafúrdia de estranhamento e fofura.
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é curioso pensar como o reborn bagunça tudo o que se espera da “mãe ideal”. quando uma mulher escolhe cuidar de um reborn, ela está dizendo: “vou maternar do meu jeito — sem parir, sem marido, sem dar satisfação pra ninguém”. e isso, em um mundo que ainda quer controlar o corpo, o tempo e até o afeto das mulheres, pode ser um tipo de ato de protesto. o reborn não serve pra nada “útil” no sentido social: não cresce, não dá trabalho, não vai cuidar de ninguém na velhice — mas é amado mesmo assim. faz lembrar da ética radicalmente intransigente da teoria queer de Lee Edelman, tão contrária ao futurismo reprodutivo a ponto de declarar em letras garrafais: NO FUTURE.
a sociedade contemporânea ama o ideal da mãe — doce, incansável, perfeita — mas vira o rosto para uma mulher real que tenta ocupar esse lugar. no universo dos reborns, muitas mulheres encontram um tipo de abrigo simbólico: um espaço onde maternar pode ser menos doloroso, menos cobrado, menos solitário. onde o cuidado não vem como obrigação, mas como escolha. afinal dá até pra deixar a boneca de lado por uns dias quando a rotina está corrida, né?
não se trata de condenar quem cuida de um reborn, mas de tentar compreender o que essa escolha carrega. se existe ali afeto, cuidado, uma forma de elaborar sentimentos — então também existe algo legítimo e profundamente humano. no fim das contas, o bb reborn nos lembra que o desejo de cuidar não precisa de permissão ou manual. só de um lugar onde possa existir e respirar… mesmo que seja uma respiração movida a baterias que só faz o peito pulsar.
o problema é que, ainda assim, precisamos lembrar que não estamos falando de uma relação entre seres vivos, como no caso do amor pelos pets, por exemplo. trata-se de uma visão sintética das relações, na qual a artificialidade é cada vez mais autêntica e o hiperconsumo cada vez mais indissociável da nossa constituição subjetiva e relacional. afinal, é no mínimo intrigante que, nessa grande brincadeira tão estranha, o verbo “comprar” tenha sido substituído por “adotar”. toda vez que as redes comentam que alguém comprou um boneco reborn, isso é anunciado através da manchete/legenda “fulano adotou um reborn”. o que diz muito sobre a confusão que temos feito entre aquisição e enlaçamento afetivo.
no final das contas, esse movimento anda no fio da navalha entre uma construção muito surpreendente — e um tanto distópica — de uma parentalidade “suficientemente boa”, livre de pressões e saturações de ideais VS uma visão totalmente tomada pelo narcisismo hiperdilatado dos tempos digitais. afinal, em muitos casos, os bebês reborn parecem funcionar como um aparato perfeito para que o sujeito cronicamente online ocupe a posição tão especial — e tão fálica — do cuidador, só que sem necessariamente ter de bancar todas as dificuldades que vem com essa escolha.
nesse sentido, bebês reborn são uma espécie de solução de compromisso cultural-mercadológica da forma como muitos de nós temos tratado o lugar de cuidado e, de certa forma, os bebês. já que, seguindo nessa linha, muitas crianças têm sido reduzidas a vertical de conteúdo, fofurinha-caça-likes, uma foto, um vídeo, um post. faz lembrar de como, no roteiro de postagens da megainfluenciadora Bianca Andrade, a Boca Rosa, “postar fofuras” do seu bebê de 10 meses é uma tarefa diária. de preferência, “em no máximo 3 stories”. é tudo parte do show, um show cada vez mais sintético, alterado, estranho e, de forma geral, não muito humano.
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